Em entrevista, a principal soprano coloratura do mundo fala sobre as apresentações  com Nicolas Testé

e a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro

“Quero proporcionar uma maravilhosa noite de ópera”

 

Por Ana Francisca Ponzio

 

“A principal soprano coloratura do mundo”. Assim Diana Damrau foi definida pelo jornal norte-americano New York Sun. Os comentários superlativos sobre a soprano alemã são comuns. Estrela lírica da atualidade, requisitada pelos mais importantes teatros de ópera do mundo, ela inaugura a programação do Mozarteum Brasileiro de 2017, na Sala São Paulo, dias 1 e 2 de maio, em um Concerto Ópera Gala que também terá a presença do consagrado baixo-barítono francês Nicolas Testé e da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro.

É a primeira vez que Diana Damrau se apresenta no Brasil. Os ingressos já estão à venda.

O programa reunirá composições de Rossini, Verdi, Meyerbeer, Gounod, Bellini, Ponchielli, Gershwin e do brasileiro Carlos Gomes.

Nesta entrevista, Diana Damrau fala sobre as apresentações em São Paulo, suas preferências musicais, seu vasto repertório, sobre música como sinônimo de vida. Em tom coloquial e sem estrelismos, se revela também como mulher contemporânea, que procura equilibrar trabalho e vida familiar.

O que deseja proporcionar ao público brasileiro com o programa escolhido para as apresentações em São Paulo?

Diana Damrau – Em primeiro lugar, eu quero proporcionar uma maravilhosa noite de ópera, com lindas melodias, alegria, drama e paixão. Escolhi música italiana e francesa, de Rossini a Gounod. Há também árias de Meyerbeer, que cobrem toda esta extensão e atualmente é o “meu compositor”. Acabo de gravar um álbum com suas árias italianas, alemãs e francesas.

Por que incluiu a obra do compositor Carlos Gomes no programa?

Diana Damrau – Acho que é uma ocasião maravilhosa para incluir, em especial, a bela ária Di sposo, di padre, da ópera Salvator Rosa, de Carlos Gomes, que será cantada por Nicolas Testé. Adoro esta obra e a conheço desde meus tempos de estudante.

Em São Paulo você cantará com a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, uma formação sinfônica que está surgindo no Brasil. Quais suas expectativas com esta experiência e o que ela significa para você?

Diana Damrau – Adoro trabalhar com músicos jovens e ajudá-los a entender como acompanhar cantores, como compreender cenas dramáticas e seguir a palavra e a expressão. Certamente haverá envolvimento entre todos e teremos uma grande energia conjunta.

O baixo-barítono Nicolas Testé, seu marido, se apresentará com você. Vocês procuram se apresentar juntos sempre que possível?

Diana Damrau – Nós adoramos nos apresentar juntos e achamos que uma gala de ópera com soprano e baixo-barítono é algo muito especial. Raramente o belo repertório de baixo-barítono pode ser ouvido em concertos, na extensão que será apresentado em São Paulo. Em segundo lugar, nós somos uma família e temos dois filhos, de quatro e seis anos de idade. Tentamos estar juntos o máximo possível e levar nossos garotos conosco quando as atividades escolares permitem.

Você atua intensamente em espetáculos de ópera. A Metropolitan Opera House, de Nova York, chegou a realizar uma produção especialmente para você. Ao mesmo tempo, você aprecia apresentações em formato de concerto. O que estes dois tipos de performances lhe proporcionam?

Diana Damrau – Adoro fazer ambos. No programa que apresentaremos em São Paulo há tesouros musicais de várias óperas. Isto significa lançar-se em diferentes personagens, situações e estilos e também ter um contato mais próximo e direto com a público. Já em um espetáculo de ópera temos uma jornada de geralmente três horas, com um só personagem que, como num filme, envolve figurinos e interação.

O que você considera mais marcante em seu vasto repertório?

Diana Damrau – Meu repertório contém todos os meus amores e especialidades – músicas religiosas e de câmara, canções, operetas, teatro musical e peças fundamentais de ópera – alemã, francesa e italiana. Eu comecei como pura soprano coloratura e a partir do repertório para este timbre houve a expansão para papéis mais líricos e dramáticos, até chegar à Traviata (Verdi), Condessa (de As Bodas de Figaro, de Mozart), Julieta (de Romeu e Julieta, de Gounod).

Quais são seus compositores favoritos?

Diana Damrau – As músicas de Verdi, Massenet, Gounod, Poulenc e Strauss me sensibilizam muito. Me despertam o desejo de cantar ou dançar.

Verdi é um compositor muito especial para você. O que este autor italiano transmite para uma cantora alemã?

Diana Damrau – Melodia, beleza, paixão e coragem.

Você faz algum trabalho corporal para ajudar sua expressividade cênica?

Diana Damrau – Para mim é mais um trabalho mental. Adoro representar, adoro teatro, cinema e olhar pessoas, há muito o que aprender nisso tudo e então eu escolho o que fazer. Gosto muito de dançar, estudei dança na infância e certamente isto me ajuda.

Como lidar com este instrumento musical – a voz?

Diana Damrau – A voz é carne, sangue, sou eu inteira. Para lidar com ela tenho que estar ok e em dia com minha saúde. Manter a voz como instrumento musical exige aprendizado e técnica. Há que protegê-la e usá-la.

A voz coloratura lhe dá um privilégio especial? Há algum cuidado específico, principalmente em dias de apresentações?

Diana Damrau – A voz coloratura me permite chegar ao extremo. Eu a chamo de “canto dublê” porque traz mais dificuldades, exige que você esteja realmente ok. Quando tenho apresentações procuro ter foco na energia que gasto durante o dia. Às vezes preciso de uma massagem na noite anterior para dar flexibilidade a todos os músculos do corpo.

Como você combina as habilidades de cantar e atuar? Como se prepara para interpretar uma personagem?

Diana Damrau – Tenho que conhecer a peça inteira – musicalmente e dramaticamente. Procuro saber a idade da personagem, o que me permite ter uma certa ideia de como ela se move, sobre como os sentimentos se refletem em seu corpo. É divertido explorar isto. Porém, em música você não é tão livre quanto no teatro. É preciso respeitar um certo ritmo do tempo, a música é o que nos guia.

O que a performance ao vivo significa para você e qual sua importância no mundo tão virtual em que vivemos?

Diana Damrau – Todos que já experimentaram a performance ao vivo sabem o que é ouvir e sentir o canto sem microfones e em tempo real. Há uma energia no hall de entrada do teatro. Palco e plateia se tornam um só. Tudo isto é realmente especial e, para mim, o mais importante.

Quão importante é a música em sua vida?

Diana Damrau – Música é NOSSA vida.

Sobre o início de sua carreira: o que determinou ou influenciou sua escolha pelo canto lírico? Algum artista a inspirou?

Diana Damrau – Minhas influências são Giuseppe Verdi, Teresa Stratas e Placido Domingo. Vi o filme La Traviata, de Franco Zeffirelli, quando tinha 12 anos de idade e então disse para mim mesma: cantar é a coisa mais bela que o ser humano pode fazer e criar. Rezei para ter algum talento e comecei a aprender tudo sobre canto.

Como administra sua vida familiar em meio à sua intensa agenda artística? Seus filhos costumam acompanhá-la em suas viagens ou turnês?

Diana Damrau – Como disse anteriormente, nós viajamos e trabalhamos juntos sempre que possível. No momento temos uma professora vivendo conosco, que faz lição de casa com os garotos e cuida deles quando estamos no teatro ou nos ensaios. Viajar e explorar o mundo juntos fez com que nossas crianças aprendessem a falar alemão, francês, inglês e ainda gostar de cantar, dançar e também apreciar o burburinho da ópera. Nossos filhos sempre ficam hipnotizados quando olham e ouvem uma orquestra.

Quais são seus próximos projetos? Há algum papel especial que ainda deseja interpretar?

Diana Damrau – Faremos uma turnê pela Europa com um programa sobre a música de Meyerbeer e os compositores de sua época. Há vários papéis que quero estrear no futuro, como Maria Stuarda, de Donizetti, e Marguérite do Fausto, de Gounod. Minha meta é explorar um repertório cada vez maior, em todas as direções e com todas as possibilidades de minha voz.